FAKETOWN -- um mundo além do arco-íris

Você sabe onde fica FakeTown? Não adianta ter GPS, não adianta procurar no GoogleEarth, não adianta procurar em nenhum Atlas. Ainda assim, pra que você se localize, pense que FakeTown fica à direita de Tlön e à esquerda de Uqbar. E, enfim, sendo um lugar que nunca está, talvez seja um lugar que nunca será.

10.15.2004

Máquinas Radicais Contra o tecno-Império

Enquanto não começamos a organizar um repositório de textos, alguém a fim de discutir/comentar este? Deixei marcadas as palavras que deu pra relacionar com as estratégias necessárias para o Cultura Viva, poderíamos selecionar algumas e tentar explorá-las...


original: [digitofagia] Máquinas Radicais Contra o tecno-Império

Tradutor Silvio Mieli (do italiano)
texto de Matteo Pasquinelli, ex-Luther Blissett
editor do Rekombinant.org (resistência anti-global, ativismo de mídia, italiano e inglês).

Título: Máquinas radicais contra o tecno-império. Da utopia ao network.

Deleuze e Guattari tiraram a máquina para fora da fábrica;
agora, cabe a nós tirá-la para fora da rede e imaginar uma geração pós-internet.
Por Matteo Pasquinelli - Fonte: Lavoro Cognitivo 13.02.2004 - http://www.rekombinant.org/article.php?sid=2257
Tradução Imediata

Cada um de nós é uma máquina do real, cada um de nós é uma máquina
construtiva.
-- Toni Negri

As máquinas técnicas funcionam, evidentemente, com a condição de não serem
estragadas. As máquinas desejantes, ao contrário, não cessam de se estragar
funcionando; só funcionam quando estragadas. A arte utiliza com freqüência esta
propriedade, criando verdadeiros fantasmas de grupo que curto-circuitam a
produção social com uma produção desejante, e introduzem uma função de estrago
na reprodução das máquinas técnicas.
-- Gilles Deluze, Felix
Guattari, L'anti-Edipo

O que é o compartilhamento dos conhecimentos? Como funciona a economia da consciência? Onde está o general intellect no trabalho? Aproximem-se de um distribuidor automático de cigarros. A maquininha que vocês vêem é a encarnação de um conhecimento científico em dispositivos de hardware e software, gerações de engenharia estratificadas para uso varejista: ela gerencia automaticamente os fluxos de dinheiro e mercadoria, substitui o humano com uma interface amigável, defende a propriedade privada e funciona graças a uma mínima rotina de controle e reabastecimento. Que fim fez o dono da tabacaria? [não entendi...] Às vezes, aproveita o tempo livre. Outras vezes, foi superado pela empresa que possui a cadeia de distribuidores. Em seu lugar, é possível encontrar-se um técnico. Longe de querer imitar o Fragmento sobre as Máquinas de Marx, com um 'Fragmento sobre os distribuidores automáticos de cigarros', esse exemplo mostra que as teorias do pós-fordismo tomam corpo ao nosso redor. E que as máquinas materiais ou abstratas construídas pela inteligência coletiva estão concatenadas organicamente aos fluxos da economia e das nossas necessidades. Fala-se de general intellect, mas seria preciso falar-se nisso no plural. As formas da inteligência coletiva são múltiplas. Algumas podem se tornar formas totalitárias de controle, como a ideologia militar-administrativa dos neocons bushistas ou do império da Microsoft. Outras, ainda, encarnam-se nas burocracias sociais-democráticas, nos aparatos de controle policial, na matemática dos especuladores de bolsa, na arquitetura das cidades (passeamos todos os dias sobre concretizações da inteligência coletiva). Nas distopias de 2001 Uma Odisséia no Espaço e de Matrix, o cérebro das máquinas evolui em autoconsciência até se livrar do humano. As inteligências coletivas "do bem", ao contrário, produzem redes internacionais de cooperação como as redes do movimento global, dos trabalhadores precários, dos que desenvolvem softwares livres, do midiativismo, dos que produzem a partilha dos conhecimentos nas universidades, das licenças abertas tipo "Creative Commons" e ainda dos planos urbanísticos participativos, das narrações e dos imaginários de libertação. A partir de uma perspectiva geopolítica, poderíamos nos imaginar em uma das paranóias de ficção científica de Philip Dick: o mundo está dominado por uma única inteligência, mas no seu interior se assiste à guerra entre duas Organizações de "general intellect" contrapostas e inter-relacionadas. Acostumados com as tradicionais formas representativas do movimento global, não percebemos os novos conflitos produtivos, preocupados muito mais com a guerra, não percebemos a centralidade do conflito. Segundo Manuel Castells, definimos o movimento como uma subjetividade de resistência que não consegue se tornar um projeto. Não percebemos a distância do movimento global do centro da produção capitalista, do centro da produção do real. E parafraseando Paolo Virno [Paul Virilio?], dizemos que já há demais política nas novas formas produtivas, para que a política de movimento ainda possa desfrutar de uma autônoma dignidade. [1] O '77 (não somente o italiano, pensamos também na estação punk), verificou o fim do paradigma "revolução" por aquele de movimento, abrindo os novos planos de conflito da comunicação, dos meios de comunicação, da produção de imaginário. Nesses dias estamos descobrindo também que o formato "movimento" deve ser superado. A favor, provavelmente, daquele de network. Três tipos de ação que no século XIX eram bem distintas - trabalho, política e arte - agora se integraram em uma mesma atitude e são centrais em cada processo produtivo. Para trabalhar, fazer política e produzir imaginário hoje são necessárias competências híbridas. Isso significa que somos todos trabalhadores-artistas-ativistas, mas significa também que as figuras do militante e do artista estão superadas e que tais competências se formam em um espaço comum que é a esfera do intelecto coletivo. O general intellect é o patriarca de uma família de conceitos cada vez mais numerosos e discutidos: economia do conhecimento, capitalismo cognitivo, inteligência coletiva, intelectualidade de massa, trabalho imaterial, cognitivismo, sociedade de informação, classe criativa, compartilha dos conhecimentos, pós-fordismo. Nos últimos anos, o léxico político se enriqueceu de instrumentos relacionados uns aos outros, os quais observamos nos perguntando para que servem exatamente. Por uma questão de simplicidade, concordamos somente com os termos herdeiros de uma abordagem iluminística, angélica, quase neognóstica. A realidade é muito mais complexa e esperamos que novas formas reivindiquem o papel que ao interior da mesma arena cabe a desejo, corpo, estética, biopolítico. E lembramos também a querela trabalhadores cognitivistas versus precários, duas caras da mesma medalha que os precogs de Chainworkers sintetizam, dizendo que: "os primeiros são networkers, os segundos networked; os primeiros brainworkers, os segundos chainworkers; os primeiros seduzidos e depois abandonados pelas empresas e mercados financeiros; os segundos envolvidos e flexibilizados pelos fluxos apátridas do capital global". [2] A questão é que estamos à procura de um novo ator coletivo e de um novo ponto de aplicação da enferrujada classe revolucionária. O sucesso do conceito de multidão reflete também a atual desorientação. O pensamento crítico procura continuamente forjar o ator coletivo que encarne o espírito dos tempos e a história é repercorrida reconstruindo-se as formas relativas a cada paradigma de ação política: o ator social mais ou menos coletivo, a organização mais ou menos vertical, o fim mais ou menos utópico. Proletariado e multidão, partido e movimento, revolução e auto-organização. Hoje em dia, imagina-se que o ator coletivo seja o general intellect (ou como se queira chamá-lo), a sua forma é a rede, o seu objetivo a constituição de um plano de autonomia e autopoiese, o seu campo de ação o capitalismo cognitivo espetacular biopolítico. Aqui não falamos de multidão, por ser um conceito ao mesmo tempo demasiado nobre e inflacionado, herdeiro de séculos de filosofia e veiculado com muita freqüência pelos megafones das manifestações. O conceito de multidão foi mais útil como exorcismo das pretensões de identidade do movimento global do que como instrumento construtivo. A pars construen caberá ao general intellect: filósofos como Paulo Virno, quando precisam reencontrar o terreno comum, o ator coletivo desaparecido, reconstroem a inteligência Coletiva ou a Cooperação como propriedade emergente e constitutiva da multidão. Em outra lenda paranóica, imaginamos que a tecnologia seja a última herdeira de uma saga de atores coletivos gerados pela história, como uma boneca matryoshka: religião - teologia - filosofia - ideologia - ciência - tecnologia. Para dizer que nas tecnologias de informação e de inteligência se estratifica a história do pensamento, mesmo se daquela saga lembramos somente o último episódio, ou seja, a rede que encarna os sonhos da geração política precedente. Como chegamos a esse ponto? Estamos no ponto de convergência de diversos planos históricos. A hereditariedade das vanguardas históricas da síntese entre estética e política. As lutas do '68 e do '77 que abrem novos planos de conflito fora das fábricas e dentro do imaginário e da comunicação. A hipertrofia da sociedade do espetáculo e da economia do logo. A transformação do trabalho assalariado fordista no trabalho autônomo precário pós-fordista. A revolução informática e o advento da internet, da net economy e da network society. A utopia secularizada em tecnologia. O mais alto exercício de representação que se torna produção molecular. Há aqueles que percebem o momento atual como um vivaz network mundial, os que o vêem como uma nebulosa indistinta, outros como uma nova forma de exploração, ou ainda como oportunidade. Hoje, a densidade alcança a massa crítica, forma uma classe radical global sobre a intersecção dos planos do ativismo, da comunicação, da arte, da tecnologia de rede, da procura independente. O que significa sermos produtivos e voltados a projetos, abandonar a mera representação do conflito e as formas representativas da política? Há uma metáfora hegemônica difundida no debate político, no mundo da arte, na filosofia, na crítica dos meios de comunicação, na cultura de rede: o software livre. Ele é citado no fim de cada evento que se ponha o problema do que fazer (mas também em artigos de marketing estratégico.), enquanto a metáfora gêmea open source contamina cada disciplina: arquitetura open source, literatura open source, democracia open source, cidade open source. Os softwares são máquinas imateriais. A metáfora free software é demasiadamente fácil devido à sua imaterialidade, que freqüentemente não consegue produzir atrito com o mundo real. Embora saibamos que é algo de bom e justo, nos perguntamos, polemicamente: o que mudará quando todos os computadores do mundo usarem free software? O aspecto mais interessante do modelo free software é a imensa rede de cooperação que foi criada entre os programadores em escala mundial, mas quais são os outros exemplos concretos que podemos dar para propor novas formas de ação no mundo real e não só no âmbito do digital? Nos anos '70, Deleuze e Guattari tiveram a intuição do mecânico, introjeção / imitação da forma produtiva industrial. Finalmente, um materialismo hidráulico que falava de máquinas com desejos, revolucionárias, celibatárias, de guerra, e não de representações e ideologias. [3] Deleuze e Guattari tiraram a máquina para fora da fábrica, agora cabe a nós tirá-la para fora da rede e imaginar a geração pós-internet. O trabalho cognitivo produz máquinas, máquinas de todo tipo, não só software: máquinas eletrônicas, máquinas narrativas, máquinas publicitárias, máquinas midiáticas, máquinas de interpretação, máquinas psíquicas, máquinas sociais, máquinas de libido. No século XIX, a definição de máquina indicava um dispositivo para a transformação de energia. No XX, a máquina de Turing - na base de cada computador - começa a interpretar a informação na forma de seqüências de 0 e 1. Para Deleuze e Guattari, ao contrário, a máquina desejante produz, corta, compõe fluxos e sem interrupções produz o real. Hoje, entendemos por máquina a forma elementar do general intellect, cada nó do network da inteligência cognitiva, cada dispositivo material ou imaterial que encadeia organicamente os fluxos da economia e dos nossos desejos. Em um nível superior, a própria rede pode ser considerada uma mega-máquina de assemblage de outras máquinas, e até mesmo a multidão se torna mecânica, como escrevem Hardt e Negri em Império: "A multidão não só usa as máquinas para produzir, mas ela mesma se torna, contemporaneamente, cada vez mais maquinal. Da mesma forma, os meios de produção são sempre mais integrados nas mentes e nos corpos da multidão. Nesse contexto, a reapropriação significa o livre acesso e controle do conhecimento, da informação, da comunicação e dos afetos, enquanto meios primários da produção biopolítica. O simples fato de que essas máquinas produtivas tenham sido integradas nas multidões não significa que essas últimas sejam capazes de controlá-las; ao contrário, tudo isso torna a alienação bem mais odiosa e corrupta. O direito à reapropriação é o direito da multidão ao autocontrole e a uma autônoma auto-produção". [4] Em outras palavras, já foi dito que no pós-fordismo, a fábrica saiu da fábrica, que a sociedade inteira se tornou uma fábrica. Uma multidão já maquinal sugere que o derrubamento do atual sistema de produção em um plano de autonomia seja possível graças a uma crise de rins, desconectando a multidão do comando do capital. Mas a operação não é de todo fácil, nos termos do tradicional moto "nos reapropriarmos dos meios de produção". Porque? Se é verdade que hoje o principal instrumento de trabalho é a cabeça e que, portanto, os trabalhadores podem imediatamente se reapropriarem do meio de produção, é igualmente verdade que também o controle e a exploração da sociedade se tornaram imateriais cognitivos reticulares. Não só se acresceu o general intellect das multidões, como também aquele do império. Os trabalhadores armados com seus computadores podem se reapropriar dos meios de produção, mas colocando o nariz fora do desktop se encontram lado a lado a um Godzilla que não tinham previsto, o Godzilla do general intellect inimigo. As meta-máquinas sociais estatais econômicas às quais nós, seres-humanos, estamos conectados como próteses, estão dominadas por automatismos conscientes e inconscientes. As meta-máquinas são gerenciadas por um tipo particular de trabalho cognitivo que é o trabalho político administrativo gerencial, o qual projeta, organiza, controla em vasta escala, uma forma de general intellect que nunca consideramos no passado, cujo príncipe é uma figura que aparece em cena na segunda metade do século dezenove: o gerente ou manager. Como lembra Bifo, citando Orwell em seu ensaio O totalitarismo Tecno-administrativo de Burnham a Bush, no mundo pós-democrático (ou, se preferirem, no império) são os gerentes que assumiram o comando:

"O capitalismo está desaparecendo, mas o socialismo não o substitui. O que está nascendo é um novo tipo de sociedade planificada e
centralizada que não será nem capitalista nem democrática.
Os governantes serão aqueles que controlam efetivamente os meios de
produção
, isto é, os executivos, os técnicos, os burocratas e
os militares
, unidos sob a categoria de gerentes,
administradores ou managers
. Eles eliminarão a velha classe
proprietária
, esmagarão a classe operária e organizarão a sociedade de modo a manter em suas mãos o privilégio
econômico
. Os direitos de propriedade privada serão abolidos, mas não por isso será estabelecida a
propriedade comum
. Não existirão mais pequenos estados independentes,
mas grandes super-estados concentrados em torno dos centros industriais da Europa, Ásia e América, e esses
super-estados combaterão entre si. Essas sociedades serão fortemente hierárquicas com uma aristocracia do talento no vértice e uma massa de semi-escravos na base."
(George Orwell, Second Thoughts on James Burnham, 1946). [5]

Citamos no início as duas inteligências que se enfrentam no mundo e as formas nas quais se manifestam. A multidão funciona como uma máquina porque se reduziu a um esquema, a um software social, concebido para a exploração de suas energias e de suas idéias. Assim, os tecno-gerentes ou tecno-managers (públicos, privados e militares) são aqueles que, inconscientemente ou não, projetam e controlam máquinas feitas de seres humanos 'assemblados' uns aos outros. O general intellect gera monstros. Em confronto com a penetração da tecno-administração neoliberal, a inteligência do movimento global é pouquíssima coisa. O que fazer? É necessário seja inventar máquinas virtuosas revolucionárias radicais nos pontos cruciais da rede, seja enfrentar o general intellect que administra as meta-máquinas imperiais. E antes de começar, tomar consciência da densidade de "inteligência" que se condensa em cada mercadoria, organização, mensagem, mídia, em cada máquina da sociedade pós-moderna. Don't hate the machine, be the machine. Como transformar a compartilha dos conhecimentos e saberes, dos instrumentos e dos espaços em novas máquinas produtivas radicais revolucionárias, além do excessivamente celebrado free software? É o mesmo desafio que há um tempo se preanunciava: reapropriar-se dos meios de produção. A classe radical global conseguirá inventar máquinas sociais que saibam desafiar o capital e funcionar como planos de autonomia e autopoiese? Máquinas radicais que saibam enfrentar a inteligência tecno-administrativa e as meta-máquinas imperiais escalonadas à nossa volta? A peleja multidões contra império se torna o combate das máquinas radicais contra os tecno-monstros imperiais. Por onde devemos começar a construir essas máquinas?

Matteo Pasquinellimat AT rekombinant.orgBologna, fevereiro de 2004Web + PDF:

www.rekombinant.org/article.php?sid=2257----1. Paolo Virno, Grammatica della moltitudine, Derive Approdi, Roma 2002.2. Chainworkers, Il precognitariato. L'europrecariato si è sollevato, 2003, publicado em www.rekombinant.org/article.php?sid=2184. ver também www.chainworkers.org e www.inventati.org/mailman/listinfo/precog.3. Gilles Deleuze, Felix Guattari, L'anti-Edipo, Einaudi, Torino 1975; ed. orig. L'anti-Oedipe, Les Éditions De Minuit, Paris 1972. 4. Michael Hardt, Antonio Negri, Impero, Rizzoli, Milano 2002; ed. orig. Empire, Harvard University Press, Cambridge MA 2000.5. Franco "Bifo" Berardi, Il totalitarismo tecno-manageriale da Burnham a Bush, 2004, publicado em www.rekombinant.org/article.php?sid=2241.Valeu mesmo, Sílvio!!!AbraçosRicardo