FAKETOWN -- um mundo além do arco-íris

Você sabe onde fica FakeTown? Não adianta ter GPS, não adianta procurar no GoogleEarth, não adianta procurar em nenhum Atlas. Ainda assim, pra que você se localize, pense que FakeTown fica à direita de Tlön e à esquerda de Uqbar. E, enfim, sendo um lugar que nunca está, talvez seja um lugar que nunca será.

10.16.2004

Pirataria nas faculdades

Uma outra coisa intrigante é a cultura da xerox na universidade e a incapacidade de se desenvolver um mercado editorial descentralizado no Brasil. Feita sob medida para o jeitinho brasileiro, a xerox impera na vida de quase todos os universitários. Desta vez, lá-ali em Brasília, "Os policiais verificaram que estudantes seguem obtendo cópias reprográficas de livros para fundamentar seus estudos – muitas vezes, a partir de orientação de professores". Apesar de ser apontado como cúmplice ou, mais, aliciador desse tão desavergonhado tráfico, não vou ficar chorando essas pitangas velhas... E quem quer piratear xerox quando pode ter uma biblioteca digital?

Há todo um acervo bibliográfico, de uma produção editorial mais-que-centenária com ciclos e picos, concentrações e distensões temáticas, políticas, ideológicas e estéticas, e a representação do pensamento de uma cultura ainda hoje enigmática, no conjunto das enigmáticas culturas dos países cá-de-baixo. Quantas pequenas editoras pulsaram breve ou longamente na história brasileira (e muitas vezes projetos de uma vida inteira, ou várias), e hoje vivem apenas temendo o mofo, as traças, o esquecimento?

O Walter Benjamin falou aquele tanto sobre a reprodu-duti-titi-bilidade (ô karma de palavra-ruim, seu!), sobre a "aura" estética, a originalidade na arte moderna, e não é raro ver quem ilustre a questão usando como exemplo a fotocópia. Ela se tornou paradigmática de um sistema mecânico de propagação da informação: quanto mais cópias existirem entre o original e o exemplar de uso, menos legível este será. Todo mundo sabe que copiar uma xerox de uma xerox de uma xerox uma hora acaba chegando ao zerox de informação útil. Mas vá lá, nesse caso, que a idéia de custo/benefício possa servir de base pra se estabelecer possibilidades de reprodução parcial ou integral de uma obra ou de um conteúdo editorial.

Agora, e sobre a mutilação editorial a que nos obrigamos submeter nossos acervos pessoais? Sim, os professores são coniventes com a xerox porque precisam compartilhar aquilo que estão lendo, muitas vezes a partir da única cópia disponível naquela faculdade ou universidade. Além disso, muito mais grave que o desconforto da diminuição na qualidade em relação ao impresso é a descontextualização de informações muitas vezes fundamentais para o contexto de leitura planejado. A discussão sobre o mercado editorial quando se desvia para um tema desses pouco tem a fazer (ou pouco tem feito até agora) no sentido de colaborar para a preservação do acervo editorial nacional e sua reintegração, como patrimônio público ou privado, nas relações de consumo cultural.

O Jack London tá abrindo um lance novo, empresona, e isso talvez ajude a definir um nicho editorial valioso para o Cultura Viva: o de editoras às quais, por uma razão ou outra, dificilmente se tem acesso. Eu não faço idéia de quantas editoras já existiram no Brasil, nem quantas hoje vivem o limbo de arquivos e prateleiras esquecidas. Mas não acho que elas sejam tão poucas assim, nem que não nos reservem boas surpresas. Como é que chegamos perto delas?

Mas tudo bem, duvido que continuaremos acorrentados às velhas xerox-criminosas... Tudo bem que ainda falta um tanto pra gente ter bases de informação menos complicadas e mais compatíveis umas com as outras, mas muitos programas educacionais poderiam se beneficiar de maneira mais sistemática do acesso a informação digital. Ao invés de nos enredarmos nas contradições do mercado-das-cópias, por que não começamos a pensar em maneiras práticas de introduzir o conceito de biblioteca digital na vida de quem tem acesso regular a computadores?

Na esteira do Fagia: BurnStation -- essa moda pega?


[d'après
Veículo: Jornal de Brasília
Título: Pirataria nas faculdades
Data: 15/10/2004 - Brasília DF]